quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tabacaria

Tabacaria, em 15 de janeiro de 1928

de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In: Pessoa, F. Obra Poética. Rio de Janeiro: Ed. Aguilar, 1986.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Seja você quem for, seja o que Deus quiser



- Quem é você, diga logo ...

- ... que eu quero saber o seu jogo
- ... que eu quero morrer no seu bloco ...
- ... que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão ...
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô



Noite dos mascarados
Chico Buarque, 1967

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Samba Saravah, com Stacey Kent

Para Maysa,
que ama francês, poesia e Vinicius!



Do Cd: Breakfast on the morning tram, 2007

http://www.staceykent.com/

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Encontrei Kent assim ...

domingo, 26 de outubro de 2008

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Landslide

Uma música, duas versões.

Landslide foi gravada pela primeira vez em 1975, pelo Fleetwood Mac. Escrita pela Stevie Nicks, a música teve algumas regravações. Confesso que só a conheci interpretada pelo The Smashing Pumpkins, nessa que parece ser a mais famosa versão. Sou capaz de escutar vezes e vezes sem enjoar. Esta música faz parte da minha história. Um dia, se eu me empolgar, eu conto por aqui o motivo.

Smashing Pumpkins - Landslide


Do cd: Pisces Iscariot, 1994


Recentemente eu conheci esta outra, da Stacey Kent. Melodia envolvente, eu agora oscilo entre as duas. Ambas me alcançam. Só que tem dias que eu elejo uma e sigo ouvindo e hoje é um deles: estou mais para Kent do que para qualquer outra coisa.

Stacey Kent - Landslide


Do cd: Breakfast on the morning tram, 2007



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião

Mesmo com as sujeiras da cidade, a bem real e a metafórica, o Rio é delicioso. E não é só a Zona Sul. É a solidariedade e o empurra-empurra na Central do Brasil, com seus grupos de pagode e oração às seis da tarde. Os boys correndo no Centro. Suas cores. O calor de Bangu e seu calçadão com chuveiro refrescante. É domingo na praia do Flamengo. É qualquer dia da semana em qualquer praia. São os blocos carnavalescos e os ensaios de rua das escola de samba. O mercadão de Madureira & o Saara. As procissões e autos-de-fé. A rua do Lavradio. Santa Teresa. Os botecos. Peladas em favelas. Tijuca e Vila Isabel. A Lagoa. Até a Avenida Brasil sem tiroteio tem um quê de beleza árida. Aqui não é espaço para falar das mazelas. Vamos buscar coisas boas até onde não dá para ver.

Por conta da dificuldade em catar poesias e outras mais, poucas coisas me animaram na última semana. Esta música foi uma delas.

Lundu (Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião - 1o. Movimento). Poesia de Geraldo Carneiro, música e regência de Francis Hime (com citação de Pivete, do Francis com o Chico Buarque) e uma bárbara interpretação do Lenine.


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

notas

Notícia muito triste: Luiz Carlos da Vila faleceu hoje de manhã. Da Vila da Penha e da Escola de Samba Vila Isabel, Luiz era uma pessoa doce, um poeta de alma nobre, um compositor fantástico com quem tive o prazer de conversar apenas umas duas ou três vezes. Na minha lista de sambas preferidos alguns são de sua autoria:

O show tem que continuar (que eu amo, amo), em parceria com Arlindo Cruz e Sombrinha;
Além da Razão, em parceria com Sombra e Sombrinha;
Kizomba - a festa da raça, com Jonas e Rodolpho, um dos melhores samba-enredos que eu já ouvi.

Para mim, seus sambas iluminavam qualquer roda. E com sua morte, o Rio de Janeiro fica menor.

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Hoje o Prosa on line, o caderno Prosa & Verso do Jornal O Globo, trouxe uma entrevista com o Fabrício Carpinejar falando do seu novo livro, Canalha! (Bertrand Brasil). Ele escreveu O casamento entre o canalha e a safada especialmente para o jornal. Tá bom! Tá de rolar de rir. E dá para pensar, ô como dá. O lançamento será na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, dia 24/10 (sexta-feira), a partir das 19h30min.

E não, eu não quero (nem preciso de) um canalha de presente ... Eu quero Canalha! de presente.

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Escutando Corrente, do Chico Buarque. Presente da Bel, que colocou um sorriso enorme no meu rosto.
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E vâmbora turma, a semana está apenas começando!

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Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.
Manoel de Barros

domingo, 19 de outubro de 2008

Desvio & Loucura

"Às vezes não tenho tanta certeza de quem tem o direito de dizer quando uma pessoa está louca e quando não.
Às vezes penso que nenhum de nós é totalmente louco e que nenhum de nós é totalmente são até que nosso equilíbrio diga ele é desse jeito.
É como se não importasse o que o sujeito faz, mas a forma como a maioria das pessoas o vê quando ele faz".

William Faukner, Enquanto eu agonizo. São Paulo: Mandarim, 2001. Tradução de Wladir Dupont. Epígrafe do lançamento do semana: Outsiders, de Howard S. Becker, da Jorge Zahar Editor.


O livro foi publicado originalmente na década de 1960 e o trabalho de campo foi realizado com músicos de jazz e usuários de maconha, na tentativa de se definir o que é um comportamento desviante para os padrões de normalidade (e moralidade) em um determinado grupo social. A pesquisa surgiu do interesse de Becker pela música e da sua convivência no jazz, já que ele é também um músico. Referência da antropologia americana contemporânea, Becker se formou na tradição da Escola de Chicago, completou 80 anos em abril e está em plena atividade. A publicação da Jorge Zahar é um esforço de homenagear e trazer a público a sua produção sobre antropologia e seus métodos de pesquisa. Pela mesma editora foi publicado ao final de 2007 Segredos e truques da pesquisa.

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Para homenagear Becker e sua sociologia do desvio, Os Mutantes.

Os Mutantes - Balada do Louco

sábado, 18 de outubro de 2008

Canção desnecessária, com Guinga

Guinga - Canção desnecessária


de Guinga e Mauro Aguiar

(...) Enlace o universo
E valse a valsa imensa
Que te fiz sonhando ...

Por mais que não pareça
nessa valsa avessa
Pulsa um coração.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

notas

E eu ganhei minha tarde lendo A blogueira e o estruturalista ... tirando o final, que me deixou com a sensação de que faltava algo, o conto é muito bom. Conhecendo algumas blogueiras e muitos estruturalistas, o texto se torna ainda mais delicioso. Dos blogs, o Todoprosa está no meu top ten há tempos. Sérgio Rodrigues é sempre uma surpresa.

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Minha andança em busca de Vinicius, na última semana, me levou à aula show na Casa de Cultura Laura Alvim (RJ), filmada em agosto de 2008. Misto de homenagem e relançamento dos livros pela Companhia das Letras, Palavra e Música vale cada minuto da visita. Com José Miguel Wisnik, Paula Morelenbaum e Arthur Nestrovski.

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Ainda em busca da palavra cantada, fui ao Festival do Rio. Foram seis documentários sobre música e poesia e uma frustração grande por não ter conseguido vencer a falta de tempo, a preguiça e a chuva. Aos poucos vou falando aqui sobre o que conseguiu me tirar da toca.

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Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

Clarice Lispector


domingo, 12 de outubro de 2008

Brinquemos!

Que a criança que em mim
encontre a criança que em você ...


Foto: stock.xchng (sxc)

Depende de nós
Que o circo
Esteja armado
Que o palhaço
Esteja engraçado
Que o riso esteja no ar
Sem que a gente
Precise sonhar...

Depende de nós, de Ivan Lins & Vítor Martins

sábado, 11 de outubro de 2008

O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo ...

Em um dia lindo de sol, ciranda e samba, cem anos de Cartola!

Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo
( a alvorada )
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Ou quase nada, do que ir assim, vagando
Nesta estrada perdida.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Para viver um grande amor, de Vinicius de Moraes & Toquinho

Gente, não vai parar de chover?
Para quem vive um grande amor neste tempinho, vale a pena escutar Vinicius. Aliás, sempre vale, até para quem nunca viveu um grande amor. Vai que serve de inspiração ...
Vinicius é o poeta da semana!

Vinicius de Moraes - para viver um grande amor



Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso.
Muita seriedade e pouco riso, para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher.
Pois ser de muitas, pôxa!, é pra quem quer, nem tem nenhum valor.
Pra viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro, seja lá como for.
Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada
E portar-se de fora com uma espada para viver um grande amor.

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor direito, não basta apenas ser um bom sujeito.
É preciso também ter muito peito, peito de remador.
É sempre necessário ter em vista um crédito de rosas no florista,
Muito mais, muito mais que na modista!
Para viver um grande amor.
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas,
Molhos, filés com fritas - comidinhas para depois do amor.
E o que há de melhor que ir para a cozinha e preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha para o seu grande amor?

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia.

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto,
E até ser, se possível, um só defunto pra não morrer de dor.
É preciso um cuidado permanente não só com o corpo, mas também com a mente,
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente e esfria um pouco o amor.
Há que ser bem cortês sem cortesia, doce e conciliador sem covardia.
Saber ganhar dinheiro com poesia, não ser um ganhador.
Mas tudo isso não adianta nada se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada para viver um grande amor.

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Texto completo de Para viver um grande amor em Releituras

Lista número 1, ano 2009

Escrever para crianças
Voltar para a percussão
Fazer dança indiana
Passar um tempo em Praga ou em Pernambuco
Aprender a bordar, fazer biscoitos e cupcakes



Está aberta a temporada oficial de listas para 2009 ...
E enquanto janeiro não chega, me concentro e tento terminar a lista de 2008!


A imagem acima é um simpático adesivo vendido na Tok&Stok

sábado, 4 de outubro de 2008

Além do amor & Deixa, com Baden Powell




Além do amor

Se tu queres que eu não chore mais

Diga ao tempo que não passe mais
Chora o tempo o mesmo pranto meu
Ele e eu, tanto
Que só para não te entristecer
Que fazer, canto
Canto para que te lembres
Quando eu me for

Deixa-me chorar assim
Porque eu te amo
Dói a vida
Tanto em mim
Porque eu te amo
Beija até o fim
As minhas lágrimas de dor
Porque eu te amo, além do amor!


Deixa

Deixa
Fale quem quiser falar, meu bem
Deixa
Deixe o coração falar também
Porque ele tem razão demais quando se queixa
Então a gente deixa, deixa, deixa, deixa
Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa
Diz que sim prá não dizer talvez
Deixa
Paixão também existe
Deixa
Não me deixe ficar triste

Baden Powell - Programa Ensaio

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Elas têm uma brincadeira: quando acham uma música que fale de amor ou um site que expresse a vontade de relacionamento sério, casas com varanda, crianças gargalhando e palhaços em festas infantis, elas trocam endereços. A sexta-feira não foi diferente - de superziper pra cá, e marthastewart.com pra lá elas pensaram muito no que as faz um tanto diferentes, mas também um tanto iguais as mulheres de sua geração.

Insone, ainda passeando pelos blogs e sites da felicidade romântica a amiga escreveu lindamente sobre relações pós-modernas, vida compartilhada e amor. E de tantas experiências e inexperiências conhecidas, suas e de outros, esta amiga aqui sentiu vontade de cantar para quem passar duas canções de Vinicius e Powell.

As canções a fizeram lembrar do avô paterno, que encontrou o amor com mais de setenta anos. Não em uma casa enorme com labrador, mas em Dona Ana, companheira verdadeira, que fazia bolo de baunilha e doce de leite caseiro em um micro apartamento em Irajá. Aos olhos de uma menina de quatro anos estar com os dois e ser espectadora daquele amor era melhor que amarelinha, melhor que subir em árvore, era melhor que Natal. E é esse grau de compartilhamento e cumplicidade que ela deseja para os amigos e para ela mesma.