quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Ano Novo, de Ferreira Gullar

© Pablo Picasso


Meia-noite. Fim

de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)


do livro Barulhos (1980-1987)



© Pablo Picasso

domingo, 28 de dezembro de 2008

Eartha Kitt


Da série Poesia em imagens

(17 de janeiro de 1927 - 25 de dezembro de 2008)

© Carl Van Vechten, 1952


© Keystone, 1955


© Michael Ochs archives / Getty Images
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Ouvindo C'est si bon
Gravação de Eartha, em 1962.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A quoi ça sert l'amour?, com Edith Piaf & Theo Sarapo



Um presente para compensar meu sumiço ...


A quoi ça sert l'amour?
Curta metragem de animação de Louis Clichy
Letra e Música de Michel Emer
Interpretada por Edith Piaf e Theo Sarapo

Pescado em Sob o céu de Paris, blog do programa homônimo da Dj Penélope.

domingo, 21 de dezembro de 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Lamento & Jamais, com Elizeth Cardoso

Minha mãe conta uma história que diz muito da minha louca família: quando ela estava se separando do meu pai, as coisas que eles tinham em comum foram negociadas muito dolorosamente, como em toda separação, porém que ela ia levando, aceitando o que ficava e o que partia. Mas que ela perdeu a pose e a vontade de negociar qualquer coisa quando ele levou, sem ela saber e sem pedir, os discos da Elizeth que eram dela. Separação tudo bem, mas levar a Elizeth não dá!
Conto esta piada familiar para explicar meu gosto (e dos meus pais) pela Elizeth. Gosto herdado, que eu cultivo com um carinho ímpar.
Eu sou uma amante (confessa) de boleros e cabarés! Ponho uma imaginária rosa branca no cabelo e saio a cantar e dançar...
Com vocês, A Divina!


Elizeth Cardoso - Lamento (Viní­cius de Moraes e Pixinguinha)


 Elizeth Cardoso - Jamais


Agradeço a contribuição de Maysa, que me enviou de presente Jamais, registro raro, e a Joãozinho, que o deu para Maysa.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Blue Singer, de Elsa Mora

Blue Singer
© Elsa Mora (aqui e aqui)

da série Poesia em imagens
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Ela é uma cantora tímida, pode?!?!?!?!
Enquanto lhe falta voz, ela escuta e se embala ao som de Gershwin. 

No fundo ela não é uma blue singer, e sim uma blue dancer ...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Florbela




Alguns direitos reservados

Meu Portugal

Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações!

Tens o fado. A Canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra onde mora!

Tu tens também a embriaguês suave
Dos campos, da paisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente…

Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais fescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue! … Às vezes, penso

Que tu és, Pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia! …

Trocando olhares (1915-1917)

*****
Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar ...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram! ...

Livro de Soror Saudade (1923)

*****
Ódio?

À Aurora Aboim

Ódio por Ele? Não ... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por ele? Não ... não vale a pena ...

Livro de Soror Saudade (1923)
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Este post faz parte da blogagem coletiva Interlúdio com Florbela, em comemoração ao 114o aniversário de nascimento (1894) e lembrança do 78o aniversário de morte (1930) da poetisa. Participar desta festa é um desafio, já que a obra de Florbela me intriga bastante.

Optei por trazer três poemas que demonstram minha percepção da sua produção. O primeiro, Meu Portugal, é um dos muitos exemplos de amor a terra pátria e nos transporta a uma outra outra paixão, também presente em Caravelas, que é o mar. É estar à beira-mar no primeiro, é o Mar-morto dentro de cada um no segundo. Caravelas também nos dá a noção de desamparo e deslocamento, e talvez de inadequação presente em seu trabalho. Caravelas ainda tem uma curiosidade: os primeiros versos nos remetem a uma citação de Dante Alighieri, também utilizado como recurso por Olavo Bilac.

A percepção de ter como objeto de amor o próprio amor (e vários são os amores de Florbela), não ter medo de se mostrar apaixonada (no primeiro terço do século XX) e a realidade da perda (que também foram muitas) estão em Ódio? - Não vale a pena odiá-lo, nunca mais o amar já é bastante!

Flor, responsável pela festa, criou um blog apenas para reunir as 90 homenagens. Passa!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Manuel Álvarez Bravo

Manuel Álvarez Bravo
(México, 1902-2002)

Foto de 1947


da série Poesia em imagens

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Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.

Maria do Rosário Pedreira




Quero apenas escutar o som do silêncio:
casamento da fotografia mexicana com poesia portuguesa.
Poesia em imagens, pois hoje é domingo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Eu nunca sei o que é pior: quando as pessoas falam ou quando elas calam.

A história de Lily Braun, com Edu Lobo & Mônica Salmaso

Edu Lobo e Mônica Salmaso. Lindos, lindos.
De um dos meus cds preferidos: O grande circo místico.



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Soñé que el fuego helaba
Soñé que la nieve ardía
Y por soñar lo imposible
Soñé que tú me querías.
- anônimo -

As músicas da semana são duas e do Chico: A história de Lily Braun (com Edu Lobo) e Outros Sonhos.

domingo, 30 de novembro de 2008

Danseurs d'Afrique, de Antoine Tempé

Saroy Rakotosofolo
Madagascar, 2002

Lacina Coulibay
Burkina Faso, 2002

Ousséni Sako
Burkina Faso, 2002


Poesia em imagens

© Antoine Tempé
http://www.antoinetempe.com/
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Ouvindo
Luis Melodia - Fadas


Tempé é uma dica da Val. Obrigada, querida!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Como se faz um etnógrafo

"Nas letras e nas ciências, as profissões de praxe, como magistério, pesquisa e algumas carreiras imprecisas, são de uma outra natureza. O estudante que as escolhe não se despede do universo infantil: antes, empenha-se em mantê-lo. Não é o magistério o único meio oferecido aos adultos que lhes possibilita permanecer na escola? O estudante de letras ou de ciências caracteriza-se por uma espécie de recusa que ele contrapõe às exigências do grupo. Uma reação quase conventual incita-o a retrair-se temporariamente ou de forma mais duradoura, no estudo, na preservação e na transmissão de um patrimônio, independente do tempo que passa; quanto ao futuro cientista, seu objeto só é comensurável à duração do universo. Portanto, nada é mais falso do que persuadi-los de que eles se envolvem; mesmo quando crêem fazê-lo o envolvimento não consiste em aceitar um grupo determinado, em identificar-se com uma de suas funções, em assumir suas oportunidades e seus riscos pessoais, mas em julgá-lo de fora e como se eles mesmos não fizessem parte dele; seu envolvimento ainda é uma maneira peculiar de se manterem descomprometidos. Desse ponto de vista, o ensino e a pesquisa não se confundem com a aprendizagem de uma profissão. São sua grandeza e sua desgraça constituírem, quer um refúgio, quer uma missão.


Nessa antinomia que opõe, de um lado, a profissão, e de outro, um projeto ambíguo que oscila entre a missão e o refúgio, e que sempre participa de uma ou de outro, sendo ora uma ora outro, a etnografia ocupa decerto um lugar privilegiado. É a forma ais extrema que se possa conceber do segundo termo. Sempre se considerando humano, o etnógrafo procurar conhecer e julgar o homem de um ponto de vista elevado e distante o suficiente para abstraí-lo das contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condições de vida e de trabalho isolam fisicamente de seu grupo por longos períodos; pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar nenhum, permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-la em nós, ainda que não nos tenha sido ensinada por ninguém" (pgs. 52 e 53).

Como se faz um etnógrafo, in.: Tristes Trópicos.
Claude Lévi-Strauss
Tradução: Rosa Freire d'Aguiar
São Paulo: Companhia das Letras, 1996


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Com as comemorações do centenário de Claude Lévi-Strauss, embarquei numa onda saudosista e desenterrei todos os artigos sobre ele que tinha no computador, procurei mais alguns e fui pegar o que tinha em minha estante. Lá no fundo, um bocado empoeirado, encontrei Tristes Trópicos e lembrei imediatamente o por quê dele ser um dos meus livros preferidos.


Contato com Lévi-Strauss eu tive no primeiro semestre da graduação e fiquei completamente apaixonada pela Eficácia Simbólica, texto que herdei dos meus professores e que adorava ler com meus alunos. No segundo ano, Teoria Antropológica II era basicamente Antropologia Francesa, ou Etnologia. Naquele ano, Lévi-Strauss estava sendo reeditado pela Companhia das Letras e se tornou meu livro de cabeceira, aquele que eu levava pra cima e pra baixo. As fotografias e os desenhos tribais, suas impressões sobre o Brasil, os textos curtos e subjetivos em formato de diário fizeram com que eu tivesse certeza (ajudado em muito por Geertz e Malinowski) de que, se eu tinha entrado na graduação para fazer Ciência Política, adeus, a antropologia ganhou mais uma fã.

Adoro as entrevistas que ele dá e os dossiês que publicam sobre ele, de tempos em tempos, nos jornais. Coleciono-os. Sempre aprendo muito com este senhor. E, é claro, entre os meus textos preferidos, muitos são de sua autoria e releio sempre que posso. Numa dessas entrevistas, achei uma das frases que para mim, é das mais geniais. Perto dos 97 anos, ele foi entrevistado pelo Le Monde em meio as comemorações do ano do Brasil na França e ao cinqüentenário de Tristes Trópicos. Perguntado por Véronique Mortaigne sobre o que ele diria do futuro, respondeu:

Não me pergunte nada desse tipo. Nós estamos num mundo ao qual eu já não pertenço mais. Aquele que eu conheci, aquele que eu amei, tinha 1,5 bilhão de habitantes. O mundo atual conta 6 bilhões de humanos. Ele não é mais o meu. E aquele de amanhã, que estará povoado por 9 bilhões de homens e de mulheres --mesmo que esta seja uma estimativa máxima de população, conforme nos garantem para nos consolar - me impede arriscar toda e qualquer previsão... [Tradução: Jean-Yves de Neufville]

Hoje ele faz 100 anos, mas convenhamos, esta não é a sensação que em alguma medida todos nós temos? A este mundo eu já não pertenço mais e não me arrisco a fazer toda e qualquer previsão...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os poços

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

Caio Fernando Abreu

domingo, 23 de novembro de 2008

Collapse in a garden, de David LaChapelle








da série Poesia em imagens






Collapse in a garden
1995
David LaChapelle




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Ouvindo
Esperanza Spalding - Precious

sábado, 22 de novembro de 2008

Pequeníssima reflexão

E ela repete vezes e vezes o que lhe ensinou Antígona:
"Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres"

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Carregando Sophia de Mello Breyner Andresen na bolsa, no corpo, e principalmente no coração.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Voyeur, com Gal Costa

Amo



Voyeur
Gal Costa

Composição: Péri

Voyeur,
Eu vou seguindo você,
Na sua dança, na sua leveza;
Estender
Meus olhos sobre você,
E assim vou descobrindo a beleza;
Colher,
No meu cantinho de terra,
A flor que nasceu por você.
Vem ver
Meu coração bater por você.

Arder
No poro, no pelo, na pele
De tudo que saia da sua presença;
Doer,
Se não responde ao recado,
Se não me dá sua correspondência.
Quem lê
No meu mais íntimo plano
Onde é que se esconde você,
Vai ver
Meu coração bater por você.

Vem ver, vem ver
Meu coração bater por você.

Vem me dar carinho,
Vem fazer lelê,
Vem me dar um cafuné,
Me fazer um chazinho.
Corda que amarrou, cobra que picou,
Sede não secou, alma desandou.
E leia na minha mão
O seu nome na linha da vida
Que corre atrás de você.

Vem ver, vem ver
Meu coração bater por você.

domingo, 16 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Deixa eu te dizer, amor ...

Francis Hime e Adriana Calcanhotto - Saudade de Amar



Vence a tua solidão
Abre os braços e vem
Meus dias são teus.

Saudade de amar
com Adriana Calcanhotto
de Francis Hime e Vinicius de Moraes


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Álbum Musical 2 [2008], de Francis Hime e Convidados

Tocado à exaustão

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Show dia 25 de novembro - Modern Sound, em Copacabana. Lançamento de Álbum Musical 2, com participação especial da cantora Tereza Cristina. Rua Barata Ribeiro, 502 – D, Copacabana. Tel: (21) 2548-5005. Às 19h
(Fonte: Biscoito Fino)

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É oficial: estou colecionando declarações de amor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Nostalgia, de Florbela Espanca













Nesse país de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p'las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi ...
Mostrem-me esse país onde nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim ...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!


Espanca, Florbela. A mensageira das violetas - Antologia. Porto Alegre: L&PM, 1997.

domingo, 9 de novembro de 2008

Survey Cover & Raining Fish, de Brett Ryder

Survey Cover

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Raining Fish


Da série Poesia em imagens
Brett Ryder

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Ouvindo Alma Thomas

sábado, 8 de novembro de 2008

Só tinha de ser com você, com Elis Regina



É, você que é feito de azul,
Me deixa morar nesse azul ...


de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O que sinto não tem nome

5 de novembro, quase 23h.

Dormi por volta de uma da manhã e acordei às três com a notícia que Obama se elegera. Sorri, e voltei a dormir. Seis horas pulo da cama com a impressão que tinha sido um sonho. Não era e me vi chorando lendo os inúmeros posts, notícias, trechos do discurso em Chicago, vídeos e fotos. Saí da frente do computador e fui me arrumar. Não resisti, voltei e postei a imagem acima. Li mais algumas notícias e chorei novamente. Fui trabalhar com a cara amarrotada, mas com a alma lavada, lavada.

Me emociono por ele ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos? É claro que sim. Como também o sentimento de fazer parte da mesma energia, da mesma esperança, da mesma mudança, que mobilizou do motoboy que cruzou o meu caminho à blogueira portuguesa. Ler quase quarenta posts de diversas partes do mundo, e publicados no espaço de 24 horas, torcendo, fazendo campanha e comemorando me emocionou muito.

O Biscoito Fino e a massa
, Weblog, vários blogs de literatura, os que trabalham com questões étnico-raciais, todos, emocionadíssimos ao longo da madrugada e do dia de hoje. Kátia, do WebNeguinha, escreveu um texto lindo sobre as três mulheres negras na Casa Branca. O reverendo Jesse Jackson chorando, a população comemorando: cenas que eu dificilmente vou esquecer.

O que me fez chorar foi perceber que ainda temos a coragem de acreditar. E sinceramente, eu nunca tinha visto essa coragem que dá as caras, tão explícita e generalizada, nas minhas três décadas de vida.

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Imagem: Hope, de Shepard Fairey

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Abracadabra, com Robin McKelle



Do Cd: Modern Antique, 2008

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Essa foi puro acaso. É para curtir a segunda-feira e animar a semana que se inicia!
Eis a página da moça no MySpace

domingo, 2 de novembro de 2008

Mariposa & Beleza Pura, de Beatriz Milhazes

Da série Poesia em imagens

Beatriz Milhazes
(nascida em 1960, no Rio de Janeiro)


Mariposa
2004, acrílico sobre tela
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Beleza Pura
2006, acrílico sobre tela

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Ouvindo Piaf

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tabacaria

Tabacaria, em 15 de janeiro de 1928

de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In: Pessoa, F. Obra Poética. Rio de Janeiro: Ed. Aguilar, 1986.