"Nas letras e nas ciências, as profissões de praxe, como magistério, pesquisa e algumas carreiras imprecisas, são de uma outra natureza. O estudante que as escolhe não se despede do universo infantil: antes, empenha-se em mantê-lo. Não é o magistério o único meio oferecido aos adultos que lhes possibilita permanecer na escola? O estudante de letras ou de ciências caracteriza-se por uma espécie de recusa que ele contrapõe às exigências do grupo. Uma reação quase conventual incita-o a retrair-se temporariamente ou de forma mais duradoura, no estudo, na preservação e na transmissão de um patrimônio, independente do tempo que passa; quanto ao futuro cientista, seu objeto só é comensurável à duração do universo. Portanto, nada é mais falso do que persuadi-los de que eles se envolvem; mesmo quando crêem fazê-lo o envolvimento não consiste em aceitar um grupo determinado, em identificar-se com uma de suas funções, em assumir suas oportunidades e seus riscos pessoais, mas em julgá-lo de fora e como se eles mesmos não fizessem parte dele; seu envolvimento ainda é uma maneira peculiar de se manterem descomprometidos. Desse ponto de vista, o ensino e a pesquisa não se confundem com a aprendizagem de uma profissão. São sua grandeza e sua desgraça constituírem, quer um refúgio, quer uma missão.

Nessa antinomia que opõe, de um lado, a profissão, e de outro, um projeto ambíguo que oscila entre a missão e o refúgio, e que sempre participa de uma ou de outro, sendo ora uma ora outro, a etnografia ocupa decerto um lugar privilegiado. É a forma ais extrema que se possa conceber do segundo termo. Sempre se considerando humano, o etnógrafo procurar conhecer e julgar o homem de um ponto de vista elevado e distante o suficiente para abstraí-lo das contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condições de vida e de trabalho isolam fisicamente de seu grupo por longos períodos; pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar nenhum, permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-la em nós, ainda que não nos tenha sido ensinada por ninguém" (pgs. 52 e 53).
Como se faz um etnógrafo, in.: Tristes Trópicos.
Claude Lévi-Strauss
Tradução: Rosa Freire d'Aguiar
São Paulo: Companhia das Letras, 1996
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Com as comemorações do centenário de Claude Lévi-Strauss, embarquei numa onda saudosista e desenterrei todos os artigos sobre ele que tinha no computador, procurei mais alguns e fui pegar o que tinha em minha estante. Lá no fundo, um bocado empoeirado, encontrei Tristes Trópicos e lembrei imediatamente o por quê dele ser um dos meus livros preferidos.
Contato com Lévi-Strauss eu tive no primeiro semestre da graduação e fiquei completamente apaixonada pela Eficácia Simbólica, texto que herdei dos meus professores e que adorava ler com meus alunos. No segundo ano, Teoria Antropológica II era basicamente Antropologia Francesa, ou Etnologia. Naquele ano, Lévi-Strauss estava sendo reeditado pela Companhia das Letras e se tornou meu livro de cabeceira, aquele que eu levava pra cima e pra baixo. As fotografias e os desenhos tribais, suas impressões sobre o Brasil, os textos curtos e subjetivos em formato de diário fizeram com que eu tivesse certeza (ajudado em muito por Geertz e Malinowski) de que, se eu tinha entrado na graduação para fazer Ciência Política, adeus, a antropologia ganhou mais uma fã.
Adoro as entrevistas que ele dá e os dossiês que publicam sobre ele, de tempos em tempos, nos jornais. Coleciono-os. Sempre aprendo muito com este senhor. E, é claro, entre os meus textos preferidos, muitos são de sua autoria e releio sempre que posso. Numa dessas entrevistas, achei uma das frases que para mim, é das mais geniais. Perto dos 97 anos, ele foi entrevistado pelo Le Monde em meio as comemorações do ano do Brasil na França e ao cinqüentenário de Tristes Trópicos. Perguntado por Véronique Mortaigne sobre o que ele diria do futuro, respondeu:
Não me pergunte nada desse tipo. Nós estamos num mundo ao qual eu já não pertenço mais. Aquele que eu conheci, aquele que eu amei, tinha 1,5 bilhão de habitantes. O mundo atual conta 6 bilhões de humanos. Ele não é mais o meu. E aquele de amanhã, que estará povoado por 9 bilhões de homens e de mulheres --mesmo que esta seja uma estimativa máxima de população, conforme nos garantem para nos consolar - me impede arriscar toda e qualquer previsão... [Tradução: Jean-Yves de Neufville]
Hoje ele faz 100 anos, mas convenhamos, esta não é a sensação que em alguma medida todos nós temos? A este mundo eu já não pertenço mais e não me arrisco a fazer toda e qualquer previsão...
Hoje ele faz 100 anos, mas convenhamos, esta não é a sensação que em alguma medida todos nós temos? A este mundo eu já não pertenço mais e não me arrisco a fazer toda e qualquer previsão...
Ah, fundamental Lévi-Strauss, ótimo trazer este trecho de "Tristes Trópicos". Também gosto muito das entrevistas dele, guardei várias.
ResponderExcluirMuito bom esse trecho do Tristes Trópicos! Comecei minha graduação com uma aversão preconceituosa ao Lévi-Strauss, que -ainda bem- se desfez ao longo dos anos.
ResponderExcluirGostei da sua reflexão e concordo: Eficácia Simbólica é o que há. ;)