segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Florbela




Alguns direitos reservados

Meu Portugal

Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações!

Tens o fado. A Canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra onde mora!

Tu tens também a embriaguês suave
Dos campos, da paisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente…

Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais fescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue! … Às vezes, penso

Que tu és, Pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó Pátria amada
A beleza eterna, a arte, a poesia! …

Trocando olhares (1915-1917)

*****
Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar ...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram! ...

Livro de Soror Saudade (1923)

*****
Ódio?

À Aurora Aboim

Ódio por Ele? Não ... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por ele? Não ... não vale a pena ...

Livro de Soror Saudade (1923)
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Este post faz parte da blogagem coletiva Interlúdio com Florbela, em comemoração ao 114o aniversário de nascimento (1894) e lembrança do 78o aniversário de morte (1930) da poetisa. Participar desta festa é um desafio, já que a obra de Florbela me intriga bastante.

Optei por trazer três poemas que demonstram minha percepção da sua produção. O primeiro, Meu Portugal, é um dos muitos exemplos de amor a terra pátria e nos transporta a uma outra outra paixão, também presente em Caravelas, que é o mar. É estar à beira-mar no primeiro, é o Mar-morto dentro de cada um no segundo. Caravelas também nos dá a noção de desamparo e deslocamento, e talvez de inadequação presente em seu trabalho. Caravelas ainda tem uma curiosidade: os primeiros versos nos remetem a uma citação de Dante Alighieri, também utilizado como recurso por Olavo Bilac.

A percepção de ter como objeto de amor o próprio amor (e vários são os amores de Florbela), não ter medo de se mostrar apaixonada (no primeiro terço do século XX) e a realidade da perda (que também foram muitas) estão em Ódio? - Não vale a pena odiá-lo, nunca mais o amar já é bastante!

Flor, responsável pela festa, criou um blog apenas para reunir as 90 homenagens. Passa!

10 comentários:

  1. Sensacional sua homenagem. Lindos textos escolhidos. Parabéns!!!

    Quando penso na vida melancólica onde ela transformou sua dor em escritos que ainda hoje sao tao atuais...

    Abracos

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  2. Bom dia, meus queridos!

    Chegamos ao grande dia da Blogagem em homenagem a Florbela Espanca.

    Tanto ansiei por este dia, e eis que, por caprichos do acaso, desde sábado estou com problemas sérios de conexão, e hoje estou aqui graças ao PC de uma Lan House... Cheia de vontade de ler os seus posts, que tão carinhosamente estão sendo publicados, mas por hora impossibilitada... A presença do técnico está marcada para hoje às 16.00 h. Espero que tudo volte ao normal para que possa, além de me deliciar com as suas postagens, publicá-las no Interlúdio com Florbela, como uma pequena forma de agradecer pelo carinho de vocês... Conto com a compreensão de todos... Beijos!

    Flor ♥

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  3. Gostei muito do seu post, da escolha dos poemas e dos motivos da escolha. Bela homenagem.

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  4. Obrigada pela visita Ana. Seu blog é bem legal. Que prazer nosso participar dessa blogagem em homenagem a Flor. Beijos querida.

    Abraços com flores belas.

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  5. Acho que todos nós blogueiros saímos ganhando ontem com esta blogagem coletiva em homenagem à Florbela não é mesmo?
    Tudo ficou mais lindo e perfumado com o doce aroma dessa Flor...bela!
    Adorei também ter participado desta grande união.
    Um grande beijo e seu post ficou uma delícia de se ler, aliás como tudo aqui.
    Um grande beijo!

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  6. Olá tudo bem?
    Passei para agradecer pela visita e comentário na minha postagem sobre a Florbela.
    Parabéns por sua participação na blogagem e sucesso sempre!

    bjs

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  7. *****

    Vim conhecer seu espaço e deixar um abraço! Gostei muito!
    Linda homenagem à amada poetisa!
    Também participei com meus blogs. Ontem devido congestionamento não consegui visitar os blogs participantes da Blogagem Coletiva, que foi um sucesso!
    Tenha uma ótima semana!

    Sintonias do Coração

    ETERNOS SONHARES

    Coisas da Helô ©


    *****

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  8. adorei òdio...nao conhecia esse poema!!!!

    Bjokas

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  9. Boa tarde! Gostei de "Ódio?"!
    Também acho que não vale a pena odiar.

    Sigo visitando os blogs participantes da blogagem coletiva.

    Isto é o que eu chamo de uma corrente do bem! Como é que se poderia chamar uma iniciativa que enche de poesia a blogosfera? Aqui está uma excelente oportunidade para que todos conheçam um pouco mais sobre a genial Florbela Espanca.

    Eis um trecho de "Ser poeta", de Florbela:

    "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
    Do que os homens! Morder como quem beija!
    É ser mendigo e dar como quem seja
    Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!"

    Parabéns a todos que estão participando!

    Sensata Paranóia

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  10. tenho problemas com florbela, vc sabe...


    Deixo o comentário mais para lhe desejar um excelente dia amnhã.
    Você vai arrasar, como sempre!!

    Beijos,
    Bebel.

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