terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Poema de canção sobre a esperança

de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa



I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!


4 comentários:

  1. Ah! Ana! esses blogs encharcados de poesia,conheço uns... a gente para, deixa de correr, respira fundo e fica sem muita resposta à perguntas não enunciadas mas subentendidas!
    Quer um exemplo:
    "Viver é desencontrar-se consigo mesmo" e... a gente, ainda acredita no encontro com o outro! Difícil né!
    Daí, que fico pensando sem dificuldade não se vai a lugar algum! e relembro "a vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro nessa vida"

    Bjinhos
    Maysa

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  2. Vinícius! Eu só penso no seguinte: "Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto".
    Te adoro!

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  3. esse poema é ótimo! valeu por postar

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  4. Oi Paula, que bom que você gostou! Obrigada pela visita e volte sempre.

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