sexta-feira, 13 de março de 2009

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


Maria do Rosário Pedreira

4 comentários:

  1. Cadê você?
    Não atualiza isso daqui não??

    ResponderExcluir
  2. E você, reclamona, não sopra mais bons ventos pro mundo? Sinto sua falta!

    ResponderExcluir
  3. E no meio deste carinho entre vcs duas, Maria do Rosário Pedreira.
    Fantástica poetisa portuguesa, dando fundo a este relacionamento.

    Beijos para as três

    ResponderExcluir
  4. Obrigada pelo comentário e pelos beijos!
    Adoro Maria do Rosário Pedreira, mas isso você já deve ter reparado.
    Beijo grande para você também.

    ResponderExcluir