sexta-feira, 27 de março de 2009

Poesia livre

Abre a porta e a janela
E vem ver o sol nascer!

Eu sou um pássaro
Que vivo avoando
Vivo avoando
Sem nunca mais parar
Ai Ai! Saudade
Não venha me matar ...


Preta pretinha, de Galvão & Moraes Moreira
A casa é toda sua ...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Contato [número 6], de Marly de Oliveira

Esta hora é perfeita e até os anjos
se aquietam como nuvens, como coisas,
deixando-me desperta

e tão tranqüila, e tão em mim sem mim,
que assim imaginara a eternidade:
não um sono sem fim,

não a paz da inconsciência ou do abandono,
mas um estar atento e sem cuidado,
vendo o que não me é dado

ainda figurar entre estas castas
imagens que persistem. Minha insônia
é sagrada? que vozes

ou que chamados me retêm aqui?
que febre, que paixão sem desvario,
me forçam a esperar

que venha a graça e baixe sobre mim?
A graça desta paz não sonegada,
com apelos de sim.

domingo, 22 de março de 2009

Vidas Secas, por Evandro Teixeira

© Evandro Teixeira


Esta fotografia faz parte do ensaio Vidas Secas, realizado por E. Teixeira e publicado na edição comemorativa dos 70 anos do livro de Graciliano Ramos.
Foi o presente que eu me dei de natal, comprado por indicação do máquina de escrever.

Ele me contempla ao longe, pedindo para tocá-lo.

Poesia em imagens

sexta-feira, 20 de março de 2009

Poesia Livre [fevereiro]

O Poesia livre de fevereiro (o primeiro, êba!) trouxe boas surpresas. Na realidade, presentes ...
Val chegou para festa trazendo Clarice Lispector: "Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos".
Para nós, compostas por urgências e vivendo nos extremos, Clarice (ai, intimidade) é um alento. Não me contentei e fui buscar o resto: "Eu caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. E a minha lucidez é que é perigosa". É isso. Clarice diz tudo.


De Brasília, Janaína enviou o Exercício nº 6, de Hilda Hilst. Conheço pouco Hilst. O presente de Janaína me instigou a buscar mais e mais ... obrigada pela surpresa.

E de todos os rumos
Pensei
(Como quem vê a prumo)
Um só núcleo pulsando
Claro-Escuro.


Maysa trouxe um presente em cada mão. Um de Angola e outro do Brasil. Ambos curtos e diretos. Lindos.

O primeiro, Terra do angolano Zetho Cunha Gonçalves:

Terra

Terra? As queimadas da infância,
as velhas árvores ardendo,
castiçais na noite.

e

Turbulência

O vento experimenta
o que irá fazer
com sua liberdade...

Turbulência, do mestre Guimarães Rosa, também registrado no blog da Aninha, que trouxe um trecho de Ausência, outro do mestre.

[...]
"Do frasco aberto,
vestidas de vespas
voam violetas...
E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas,
vazias dos teus pés..."

A próposito, o resgate de Magma que Aninha fez em seu blog, foi ótimo.

Lunna foi buscar no mar a poesia de Sophia [de Mello Breyner Andresen]. Sophia é uma paixão, e nesta altura do campeonato todos vocês já sabem. É um conforto estar com ela.

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


A turma da música veio carregada de amor. AMOR, assim mesmo, em maiúscula.

Thaís, com a versão brasileira de Someone to watch over me, de Gershwin, cantada pela Paula Toller: Quem toma conta de mim.

Paula Toller - Quem Toma Conta De Mim



Bel trouxe, das rodas de samba de Madureira que amamos, uma daquelas que, se deixarem (e que bom que não deixam), cantamos o dia inteiro fazendo corinho uma pra outra: Você me abandonou, com a Velha Guarda da Portela.

Velha Guarda da Portela - Você me Abandonou




Uma para o amor que está chegando de mansinho. Outra para o amor que precisa sair do corpo. E rápido. As duas ótimas.

Queridas, eu adorei. Agradeço um tantão assim! Semana que vem tem mais.

terça-feira, 17 de março de 2009

O Amor Bate na Aorta


de Carlos Drummond de Andrade


Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...



domingo, 15 de março de 2009

Billie Holiday: Last recording session, por Milt Hinton

Humana, demasiadamente humana

Poesia em imagens


Billie Holiday: Last recording session, NYC (entre 1958 e 1959)

(1910-2000, fotógrafo e músico de jazz)

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sexta-feira, 13 de março de 2009

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 9 de março de 2009

Overjoyed, com Esperanza Spalding




A dica é da WebNeguinha Katia. Eu adorei. Esperanza cantando Stevie Wonder, Overjoyed - que só me lembra de coisas muito boas, tudo. Obrigadíssima, querida!

domingo, 8 de março de 2009

Women, de Annie Leibovitz

Asabi Romera e família, por © Annie Leibovitz



Alice Waters, chef, por © Annie Leibovitz


Louise Bourgeois, escultora, por © Annie Leibovitz



Susan Sontag, por © Annie Leibovitz


 

Poesia em imagens


Fotografias do livro Women , de Susan Sontag

sábado, 7 de março de 2009

Grão de milho

de Francis Hime & Cacaso

Sou pequeno feito conta
Bem menor que grão de milho
Minha terra é minha infância
Onde estou é meu exílio.

A manhã sempre madruga
Quando o corpo ainda descansa
Esquecido do seu sono
Claridade muito branca.

A preguiça não faltava
Nem sobrava esperança
Pela tarde escurecia
Vendaval de passo preto.

Nem um vento extraviado
Vem turvar o arvoredo
Nem um susto ou desejo
Me passava tanto medo.

A noitinha vinha vindo
Pelas asas dos morcegos
Uma dor se acomodava
Nas profundas do meu peito.

Não sabia que a saudade
Era triste desse jeito.

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A versão cantada por Renato Braz, em Álbum Musical 2, é belíssima.
Aqui, com Francis Hime, via YouTube.

sexta-feira, 6 de março de 2009

notas

Os posts meio babélicos, como devem ter reparado, nesta casa recebem o mesmo nome: notas. Tudo que eu quero falar e não dou conta de transformar em um post vem pra cá. Tem jeito não. Por isso as notas são fundamentais para o funcionamento dessa casa.

Isso posto, começo falando da irmã. Bel lançou uma brincadeira no Ventarolas. O Vamos brincar? consiste no seguinte: faço uma pergunta para um blog e a resposta será dada no blog do(a) escolhido(a). Vamos tentar?

A pergunta que Bel soprou para o Catando foi: Mas me diga, minha irmã, você que gosta de catar poesias. Diga a essa sua amiga que sopra brisas e ventanias, quando a gente vai de Ella venta a sudoeste ou a nordeste?

Ah, Ella é Ella. Depende do dia. Mas geralmente é assim: quando precisamos escutá-la o vento está a sudoeste. Depois que a escutamos, vai para nordeste!
Respondido?

Minhas perguntas vão para Maysa [O ninho e a tempestade], Aninha, [ANAcoluto e cronismos ...] e Val [que seja doce].

Para Ysa: O que você sente quando, nas madrugadas da vida, Cecília (a Meireles) te pega pela mão e caminha com você até a manhã chegar?

Para Aninha: Se o vento te carregasse sem destino, onde você gostaria de aportar?

Para Val: Das dores e delícias da vida, o que tem valido a pena na sua caminhada? E o que é mais doce?

Querem responder também às perguntas? A casa é de vocês.

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Ganhei um moleskine lindo de uma promoção do Sambacine. Ah, vocês nem sabem como fizeram uma pessoa feliz. Amei o recado fofo enviado por e-mail. Vou catar muitas poesias com ele sim.
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O Dudu Oliva está querendo saber por que você bloga. Dica da Lunna.
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Sexta passada foi dia de Poesia Livre. Foram oito ótimas contribuições entre músicas e poesias. Ainda dá tempo, passa ! A ciranda poética será publicada em forma de post dia 20. E toda última sexta-feira do mês, poesia livre.
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Entrei na fase final da tese e agora tenho demorado cerca de uma semana para responder as mensagens e os comentários. Mas não desistam, eu gosto muito do carinho. Os posts não pararão. O blog e o twitter são uma espécie de último lugar da resistência.
Daqui não saio.

quinta-feira, 5 de março de 2009

los ilusos, de Juan Gelman

la esperanza fracasa muchas veces, el dolor jamás. por eso algunos creen que más vale dolor conocido que dolor por conocer. creen que la esperanza es ilusión. son los ilusos del dolor.

 

Juan Gelman em Eso

Publicado em português com o título de Isso , pela Editora UnB, coleção poetas do mundo.

domingo, 1 de março de 2009

Robert Capa, de Gerda Taro

Robert Capa, no front de Segóvia, em maio de 1937
(Durante a Guerra Civil Espanhola)


Poesia em imagens

Robert Capa (1913-1954)
por Gerda Taro (1910-1937)


Acho que a parceria e o romance entre Capa & Taro dariam um baita filme hollywoodiano. E mais não digo.

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Elizabeth Shepherd Trio - Ton Visage