sábado, 31 de janeiro de 2009

Samba e Leveza

Foi na leveza
Só sentimento
E me entregou suas palavras
Como quem dava um pedaço
Delicadeza foi
Disse ao meu coração
E ela me deu a intenção
Do samba que eu não fiz

Ô, sambá
É o que eu quero sentir
Ô, sambá
Quando eu te ver sorrir
Ô, sambá
Coisa melhor que eu fiz
Mundo caiu no samba
Na hora que eu te vi

Você me batucou
Skindô meu coração
Quando eu te vi
Sambar assim
Aqui neste lugar
Onde este mesmo sol
Costuma aparecer
E a lua vem ouvir
O som estéreo do mar

Ô, sambá
Venha me dar seu amor
Ô, sambá
Que eu sambo aonde for
Ô, sambá
É o tempo certo de ser
E eu sambaria o mundo
Só pra encontrar você

no You Tube

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O grande circo místico

Medo de subir, gente
Medo de cair, gente

Medo de vertigem

Quem não tem ...


Quando o Nando - meu pequeno grande irmão - era bebê, um dos meus maiores prazeres era morder aquele pé gorducho e cantar, até que ele ficasse cansado, Ciranda da Bailarina. Talvez por isso Chico seja nossa paixão compartilhada.

O grande circo místico é um dos meus discos preferidos (e eu já disse isso aqui), um daqueles que eu sei todas as músicas de cor, um daqueles que eu lembro só de coisas muito especiais toda vez que muda a faixa.

Que outra obra pode disparar imagens tais como a citada acima?

Ou esta

Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite

Eu disse please
Xale no decote

Disparei com as faces

Rubras e febris


ou ainda

Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz

Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
...

Em tempos de fitas cassetes, o grande circo foi gravado vezes e vezes para os amigos próximos. Tô aqui enrolando para dizer uma única coisa: o cd foi relançado pela Biscoito Fino. A novidade: com faixas que não constavam nas versões anteriores, como, por exemplo, uma gravação de Beatriz com Tom Jobim ao piano.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Dia

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Poema de canção sobre a esperança

de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa



I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!


domingo, 25 de janeiro de 2009

Integração Racial e a América Negra de Jacob Lawrence

Brooklyn Stoop, 1967 [Integration]


Time Magazine cover, 1970


Buiders 1, 1974 [Integration]


Lawrence gostaria de ter acompanhado a eleição e posse de Obama ...


Poesia em Imagens
© Jacob Lawrence (1917-2000)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Arquivos implacáveis: Manuel Bandeira

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2009 homenageará Manuel Bandeira. Mantendo um blog no site do evento, Flávio Moura tem publicado regularmente notícias sobre literatura, o poeta e a própria Flip e seus autores convidados.

Ainda sintonizada em Condé, fui lá e pesquei o flash autobiográfico de Bandeira, publicado originalmente na Revista O Cruzeiro.

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Flash Autobiográfico
por João Condé

Nome: Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Nasceu no Recife, na rua Joaquim Nabuco, em 1886. Solteiro, sem filhos. Altura: 1,68m, sem sapatos. Colarinho nº 40 (pescoço forte!). Sapatos nº 39. É míope, usa óculos e se sente feliz por isso. Tem ficado bastante surdo com a idade e se sente muito infeliz por isso. Já deixou duas vezes de fumar e não tem muito orgulho disso, porque acha, como Pedro Dantas (Prudente de Morais, neto), que é mais fácil deixar de fumar do que fumar pouco. Acorda às sete e meia, deita-se à meia noite. Agradece os livros que recebe e responde as cartas; danado da vida, mas responde. Gosta de criança e de animais, sobretudo de cachorro. Não gosta de abiu nem de caqui, nem de melancia. É contra os regimes totalitários, da direita ou da esquerda, contra a lei de inquilinato e contra a mão-única nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Suas orações: o Padre-Nosso e o verso de Verlaine "Seigneur, délivrez moi de l'orgueil toujours bête". Cada vez mais admira e estima o poeta Carlos Drummond de Andrade, e diz: "Quem não estiver de acordo, é favor não falar mais comigo". Poeta brasileiro de sua predileção: o citado. Romancistas brasileiros de sua predileção: José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Contistas de sua predileção: Ribeiro Couto, Rodrigo M. F. de Andrade e Marques Rebelo. Seu cronista predileto: o velho Braga. Pintores brasileiros de sua predileção: Portinari, Pancetti e Cícero Dias da 1ª fase. Escultor brasileiro de sua predileção: Celso Antônio. Compositores brasileiros de sua predileção: não tem predileto. Pertence ao Partido Socialista Brasileiro. Não é requintado: gosta de jiló, cinema falado, rádio, mesmo com "friture", e de poetas de segunda ordem. Seu maior amigo: Rodrigo M. F. de Andrade. Detesta escrever para jornais e falar em público. Não tem nenhuma religião, mas a de sua simpatia é a católica. Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser o que não pode: arquiteto. Arte de sua predileção: a música. Gosta de antigos e modernos, preferindo acima de todos Bach, Haydn e Mozart. Gosta de todo gênero de leitura, sem predileção. Tem medo de ter medo na hora de morrer. Escreve diretamente a máquina; quando se trata de poesia, rascunha a lápis as primeiras idéias dos poemas. Gosta mais de visitar do que ser visitado. Não tem secretário nem criado, e prepara o seu café da manhã; sabe fazer muito bem sorvete de café e doce de leite. Gosta da solidão. Com um poema publicado num jornal conseguiu que o prefeito Mendes de Morais mandasse calçar o pátio para onde dão as janelas do seu apartamento. Não se casou porque perdeu a vez. Ri com muita facilidade porque é dentuço. Homem de muitos amigos. Como Valéry, raramente faz versos, mas em matéria de poesia é o anti-Valéry: acredita e confia na inspiração, acredita na reabilitação do lugar-comum. Guarda pelo Recife a sua ternura de infância. Costuma veranear desde 1914 em Petrópolis. Não se consola de ter estado três dias em Paris, sem ver Paris. Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos (A cinza das horas). Faz versos desde os dez anos de idade. Já tocou violão e sabe executar ao piano dois prelúdios de Chopin, um número do Carnaval de Schumann e uma peçazinha de Mac-Dowell. Coisas que mais detesta: fila de qualquer coisa, responder a enquetes, dar opinião sobre os pardais novos, esperar retardatários, fazer plantão em guichê, viajar de trem etc. Gosta de: tirar retratos, ver figuras, ler suplementos literários, bestar etc. Suas reminiscências mais antigas remontam aos três anos de idade e estão contados no seu poema "Infância". Tem uma dúzia de poemas novos, que em futura edição de Poesias completas serão incorporados ao livro Opus 10. Aprecia os novos e novíssimos da poesia brasileira, ledos ou não. Gostaria de morrer de repente, mas em casa.

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Para ler mais sobre a Revista O Cruzeiro: Memória Viva.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Objetos de desejo: Caixa Pessoa


Objeto de desejo
Caixa Pessoa: Sete livros - sete retratos
Portugália Editora
Em comemoração aos 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa
1a Edição: 2008
A caixa não será reeditada
Dos livros, um é original e inclui sete poemas dedicados ao poeta e sete retratos.
Preço sugerido de venda: 140 euros.

O preço é proibitivo. Mas é desnecessário dizer que eu se pudesse, pagaria.


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Arrumando a casa ou Post sobre o nada

O ano se inicia quando é hora de voltar a labuta. Significa que o recesso acabou, esse tempo tão fora da realidade. Todo carnaval tem seu fim. Dia 5 foi apenas um ensaio e 2009 será corrido. Em março de 2008 já tinha pilhas de coisas para fazer em 2009. Terminar a tese. Dois congressos. Mudanças de todos os tipos. Textos entregues há bastante tempo que serão publicados agora. Voltar a dançar. Uns quilos a mais para perder. E se tudo der certo férias, as primeiras em três anos.

O recesso de 19 de dezembro a 5 de janeiro foi curto. Infelizmente curto. Mas revi amigos, fiz o circuito chá-suco-chopp do Rio de Janeiro, vi uns filmes idiotas e outros nem tanto, organizei meus livros, textos e escritos, li Capote, Caio F. e Lispector. Tomei sorvete e comprei sapatos.

Trabalhei como uma alucinada até a véspera de natal. Nunca corri tanto. Agradeço a ajuda dos anjos que posso chamar de amigos e que estiveram presentes e seguraram comigo o melhor e pior de 2008 em termos de trabalho.

2008 foi um ano bom em vários aspectos: assisti Kathleen Battle no Teatro Municipal, conheci dois novos países, revi amigos que estão longe (não necessariamente nesta ordem). Ganhei uma doação de livros de poesia, folclore e antropologia, muitos dos quais esgotados. Conheci gente boa pra caramba. Assumi novos desafios profissionais. Falei muito com os meus primos, que amo. E criei o blog, espaço que me permitiu conhecer pessoas e espaços inteligentes, conviver mais com meus amigos de longe e voltar a escrever coisas mais pessoais.

Muitos outros blogs me fizeram companhia. Alguns estão listados nas barras ao lado, outros eu acompanho. Docblog saiu do ar em 1/1, mas continuará listado aqui por ter se tornado referência. Seus arquivos ficarão no site do Jornal O Globo e confesso que sentirei falta de C. A. Mattos e seus colaboradores. Descobri o mundo dos blogs portugueses, principalmente os de literatura, que são absolutamente fantásticos. Estão ao lado ou no Twitter. Os blogs que falam de política são as minhas paixões de sempre: Idelber Avelar, do Biscoito Fino e a massa e Pedro Doria, do Weblog fazem um trabalho ímpar. Quem não entende nada sobre a Faixa de Gaza, dê uma passadinha nos dois. Como comida e craftwork também são uma forma de poesia, a lista do que eu quero ser quando crescer só aumenta. Descobri umas coisas fantásticas de culinária nos últimos meses do ano e me falta tempo, mas sobretudo coragem, para voltar a cozinhar. Alguém se oferece como cobaia?

As resoluções de ano novo que afetam o blog são estas: uma vez por mês publicarei minhas próprias fotos, que podem ser de viagens, trabalho de campo ou do meu cotidiano. E, uma vez por mês, poesia livre. Se der uma passadinha por aqui, deixe uma poesia. Qualquer uma. Tá valendo trecho de letra de música, poesias de outros, desde que mencionem de onde veio o texto, ou suas. Escreva como anônimo ou apareça, mas deixe uma poesia.

E se eu ainda não disse, então vamos lá: mentalize que 2009 será O ano. Por que todos os anos, são O ano, certo?

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Enviado pela Bel há uns meses atrás, compartilho com vocês o seguinte texto:

"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo a pergunta: possui este caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma. "

(Carlos Castañeda, A Erva do Diabo)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Arquivos implacáveis: Cecília Meireles

Ainda sintonizada em Cecília ...


Flash autobiográfico
por João Condé

Nome: Cecília Meireles. Nasceu no Distrito Federal. Casada, tem três filhas e dois netos. Altura, 1,64. Pesa 59 quilos e calça sapatos número 37. É quase vegetariana. Não fuma, não bebe, não joga. Não pratica nenhum esporte, mas gosta muito de caminhar e acha que seria capaz de dar a volta ao mundo a pé. Não gosta de futebol e raramente vai ao cinema. Gosta de bom teatro. Responde pontualmente todas as cartas que recebe, mas atrasa-se às vezes, em agradecer livros, porque só agradece depois de os ler. Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. Poetas preferidos: todos os bons poetas. Prefere pintores flamengos. Dorme e acorda cedo. Leu Eça de Queirós antes dos 13 anos. Escreveu o seu primeiro verso aos 9 anos. Estudou canto, violão, violino e, às vezes, desenha. Se pudesse recomeçar a vida gostaria de ser a mesma coisa, porém melhor. Seu primeiro livro publicado foi Espectros, tinha 16 anos. Principal defeito: uma certa ausência do mundo. Seu tormento: desejar fazer o bem a pessoas que precisam de auxílio e não o aceitam. Nunca viu assombração, mas gostaria de ver. Não tem medo de viajar de avião em viagens longas. Gostaria de tornar a visitar o oriente e chegar até a China. Penso que poderia, pelo menos, ficar muito tempo no Mediterrâneo. Coleciona objetos de arte popular. Já colecionou xícaras e colheres de café. Agora acha o café tão ruim que não vale a pena colecionar os acessórios. Teve grande emoção quando chegou aos Açores, terra de seus antepassados. Outra emoção grande: quando viu sua "Elegia a Gandhi" traduzida em idiomas da Índia. É o poeta brasileiro mais conhecido em Portugal. Até agora não conseguiu gostar de Paris, embora admire a França. Admira profundamente São Francisco de Assis, Gandhi e Vinoma Bhave. Coisas que a horrorizam: tocar em papel carbono, ver comer ostras, aspirar fumaça de ônibus. Coisas que ama: crianças, objetos antigos, flores, música de cravo, praia deserta, livros, livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo. Acha que não tem medo da morte. Gostaria de morrer em paz.


Publicado em Arquivos implacáveis, da Revista O Cruzeiro, em 31 de dezembro de 1955.

In.: Meireles, Cecília. Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1972.

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Um dos livros de poesia que ganhei da minha querida L.

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Mais sobre João Condé em Arquivos implacáveis, de Muza Clara Chaves Velasques.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Suzanne in the woods, de Carl Larsson


Poesia em imagens

Suzanne in the woods
© Carl Larsson (Suécia, 1853-1919)

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De origem muito pobre e vindo de uma casa onde a instabilidade emocional imperava, Larsson consegue ser admitido, aos 13 anos, na Real Academia Sueca das Artes na qual se tornaria um dos melhores alunos. Em 1877, ainda tentando a carreira de artista, vai morar em Paris. Lá conhece Karin Bergöö, também artista, com quem casaria em 1882.

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Suzanne Larsson, retratada nesta aquarela, foi a primeira dos oito filhos de Carl e Karin Larsson e.nasceu em 1884. Ela e toda sua família aparecem nas diversas obras do pai como seus modelos preferidos.

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A charmosa casa da família Larsson, presenteada ao casal, chamada de Lilla Hyttnä, hoje é um museu chamado Carl Larsson - Garden, que abre no verão europeu e recebe visitantes de todo o mundo.

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Para homenagear Larsson, sua paixão pela natureza e as crianças, escolho um poema de Cecília Meireles, publicado no livro infantil Ou isto ou aquilo (Poemas infantis), de 1964.


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Leilão de Jardim

Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é o meu leilão!)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Pierre Verger


Poesia em imagens

Cachoeira (Bahia, Brasil) - fotografia tirada entre 1946 e 1978

©
Pierre Fatumbi Verger (Paris, 1902 - 1996)
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

De quem eu gosto ...

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Desde que o Marcos, do Divertimento para Clarinete e Orquestra Opus 2, publicou Amália Rodrigues eu não consigo parar de ouvi-la. Êta compulsão!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Maísa, de Manuel Bandeira

Um dia pensei um poema para Maísa
“Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos

A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios
meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)”

Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?

Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca

Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986, pp 239-40.

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Pescado aqui

domingo, 4 de janeiro de 2009

Growing into a Respectable Lady No. 5, de Jen Corace

Poesia em imagens
Growing into a Respectable Lady No. 5
© Jen Corace
aqui e aqui

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Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola.

Clarice Lispector, em A hora da estrela

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Com licença poética, de Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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Publicado em Poesia Reunida. São Paulo: Editora Siciliano, 2001.
Via Projeto Releituras