Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício.
Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça: nada ali indica que um ano novo começa.
E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no coração.
Começa como a esperança de vida melhor que entre os astros não se escuta nem se vê nem pode haver: que isso é coisa de homem esse bicho
Minha mãe conta uma história que diz muito da minha louca família: quando ela estava se separando do meu pai, as coisas que eles tinham em comum foram negociadas muito dolorosamente, como em toda separação, porém que ela ia levando, aceitando o que ficava e o que partia. Mas que ela perdeu a pose e a vontade de negociar qualquer coisa quando ele levou, sem ela saber e sem pedir, os discos da Elizeth que eram dela. Separação tudo bem, mas levar a Elizeth não dá!
Conto esta piada familiar para explicar meu gosto (e dos meus pais) pela Elizeth. Gosto herdado, que eu cultivo com um carinho ímpar.
Eu sou uma amante (confessa) de boleros e cabarés! Ponho uma imaginária rosa branca no cabelo e saio a cantar e dançar...
Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções
Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,
Tudo que faz bater os corações!
Tens o fado. A Canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na calma da guitarra onde mora!
Tu tens também a embriaguês suave
Dos campos, da paisagem ao sol poente,
E esse sol é como um canto d’ave
Que expira à beira-mar, suavemente…
Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas
Mais fescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue! … Às vezes, penso
Que tu és, Pátria minha, branca fada Boa e linda que Deus sonhou um dia, Para lançar no mundo, ó Pátria amada A beleza eterna, a arte, a poesia! …
Este post faz parte da blogagem coletiva Interlúdio com Florbela, em comemoração ao 114o aniversário de nascimento (1894) e lembrança do 78o aniversário de morte (1930) da poetisa. Participar desta festa é um desafio, já que a obra de Florbela me intriga bastante.
Optei por trazer três poemas que demonstram minha percepção da sua produção. O primeiro, Meu Portugal, é um dos muitos exemplos de amor a terra pátria e nos transporta a uma outra outra paixão, também presente em Caravelas, que é o mar. É estar à beira-mar no primeiro, é o Mar-morto dentro de cada um no segundo. Caravelastambém nos dá a noção de desamparo e deslocamento, e talvez de inadequação presente em seu trabalho. Caravelas ainda tem uma curiosidade: os primeiros versos nos remetem a uma citação de Dante Alighieri, também utilizado como recurso por Olavo Bilac.
A percepção de ter como objeto de amor o próprio amor (e vários são os amores de Florbela), não ter medo de se mostrar apaixonada (no primeiro terço do século XX) e a realidade da perda (que também foram muitas) estão em Ódio?- Não vale a pena odiá-lo, nunca mais o amar já é bastante!
Flor, responsável pela festa, criou um blog apenas para reunir as 90 homenagens. Passa lá!
Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira
Quero apenas escutar o som do silêncio: casamento da fotografia mexicana com poesia portuguesa. Poesia em imagens, pois hoje é domingo.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Eu nunca sei o que é pior: quando as pessoas falam ou quando elas calam.
"Nas letras e nas ciências, as profissões de praxe, como magistério, pesquisa e algumas carreiras imprecisas, são de uma outra natureza. O estudante que as escolhe não se despede do universo infantil: antes, empenha-se em mantê-lo. Não é o magistério o único meio oferecido aos adultos que lhes possibilita permanecer na escola? O estudante de letras ou de ciências caracteriza-se por uma espécie de recusa que ele contrapõe às exigências do grupo. Uma reação quase conventual incita-o a retrair-se temporariamente ou de forma mais duradoura, no estudo, na preservação e na transmissão de um patrimônio, independente do tempo que passa; quanto ao futuro cientista, seu objeto só é comensurável à duração do universo. Portanto, nada é mais falso do que persuadi-los de que eles se envolvem; mesmo quando crêem fazê-lo o envolvimento não consiste em aceitar um grupo determinado, em identificar-se com uma de suas funções, em assumir suas oportunidades e seus riscos pessoais, mas em julgá-lo de fora e como se eles mesmos não fizessem parte dele; seu envolvimento ainda é uma maneira peculiar de se manterem descomprometidos. Desse ponto de vista, o ensino e a pesquisa não se confundem com a aprendizagem de uma profissão. São sua grandeza e sua desgraça constituírem, quer um refúgio, quer uma missão.
Nessa antinomia que opõe, de um lado, a profissão, e de outro, um projeto ambíguo que oscila entre a missão e o refúgio, e que sempre participa de uma ou de outro, sendo ora uma ora outro, a etnografia ocupa decerto um lugar privilegiado. É a forma ais extrema que se possa conceber do segundo termo. Sempre se considerando humano, o etnógrafo procurar conhecer e julgar o homem de um ponto de vista elevado e distante o suficiente para abstraí-lo das contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condições de vida e de trabalho isolam fisicamente de seu grupo por longos períodos; pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar nenhum, permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-la em nós, ainda que não nos tenha sido ensinada por ninguém" (pgs. 52 e 53).
Como se faz um etnógrafo, in.: Tristes Trópicos. Claude Lévi-Strauss Tradução: Rosa Freire d'Aguiar São Paulo: Companhia das Letras, 1996
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Com as comemorações do centenário de Claude Lévi-Strauss, embarquei numa onda saudosista e desenterrei todos os artigos sobre ele que tinha no computador, procurei mais alguns e fui pegar o que tinha em minha estante. Lá no fundo, um bocado empoeirado, encontrei Tristes Trópicos e lembrei imediatamente o por quê dele ser um dos meus livros preferidos.
Contato com Lévi-Strauss eu tive no primeiro semestre da graduação e fiquei completamente apaixonada pela Eficácia Simbólica, texto que herdei dos meus professores e que adorava ler com meus alunos. No segundo ano, Teoria Antropológica II era basicamente Antropologia Francesa, ou Etnologia. Naquele ano, Lévi-Strauss estava sendo reeditado pela Companhia das Letras e se tornou meu livro de cabeceira, aquele que eu levava pra cima e pra baixo. As fotografias e os desenhos tribais, suas impressões sobre o Brasil, os textos curtos e subjetivos em formato de diário fizeram com que eu tivesse certeza (ajudado em muito por Geertz e Malinowski) de que, se eu tinha entrado na graduação para fazer Ciência Política, adeus, a antropologia ganhou mais uma fã.
Adoro as entrevistas que ele dá e os dossiês que publicam sobre ele, de tempos em tempos, nos jornais. Coleciono-os. Sempre aprendo muito com este senhor. E, é claro, entre os meus textos preferidos, muitos são de sua autoria e releio sempre que posso. Numa dessas entrevistas, achei uma das frases que para mim, é das mais geniais. Perto dos 97 anos, ele foi entrevistado pelo Le Monde em meio as comemorações do ano do Brasil na França e ao cinqüentenário de Tristes Trópicos. Perguntado por Véronique Mortaigne sobre o que ele diria do futuro, respondeu:
Não me pergunte nada desse tipo. Nós estamos num mundo ao qual eu já não pertenço mais. Aquele que eu conheci, aquele que eu amei, tinha 1,5 bilhão de habitantes. O mundo atual conta 6 bilhões de humanos. Ele não é mais o meu. E aquele de amanhã, que estará povoado por 9 bilhões de homens e de mulheres --mesmo que esta seja uma estimativa máxima de população, conforme nos garantem para nos consolar - me impede arriscar toda e qualquer previsão...[Tradução: Jean-Yves de Neufville]
Hoje ele faz 100 anos, mas convenhamos, esta não é a sensação que em alguma medida todos nós temos? A este mundo eu já não pertenço mais e não me arrisco a fazer toda e qualquer previsão...
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poçovocê vai descobrir quê.